domingo, 17 de novembro de 2019




NOVELA DA VIDA REAL

CAPÍTULO 1
Estamos coletivamente vivenciando a era da
falência emocional e do esgotamento cerebral,
algo só experimentado em campos de batalha.
Mas onde está a guerra que travamos?
Em nossa mente.
(Augusto Cury)


     São cinco e meia da manhã. Mais um dia que consigo acordar antes do despertador. A sensação é de não ter dormido nada! Meu corpo está moído, mas mesmo assim preciso me levantar. Olho como está o tempo pela janela: nublado, porém abafado. Ainda com movimentos lentos escolho um tipo de roupa que melhor se adeque aos compromissos do dia e ao clima. Ao mesmo tempo mentalmente luto contra um pensamento insistente: o de ficar em casa. A desmotivação e a baixa autoestima já estão de pé perto da porta da cozinha me esperando para serem a companhia do dia. Não consigo me livrar delas. Já tentei, mas parecem ficar mais fortes a cada dia. Me pergunto se tenho mesmo que sair de casa hoje. Respiro fundo, pego minha pasta com documentos, miro a saída e em um impulso quase sobre-humano me desloco para o ponto de ônibus. O pensamento de voltar à casa segue comigo. Para sair desse foco olho para a rua e percebo uma casa que parecia não estar ali antes. Olhei mais de uma vez para me certificar e confesso ter ficado confuso, pois não havia reparado aquela casa amarela com flores em um canteiro ao lado do portão, do lado de fora. Minha mente deve estar muito cansada ou meu nível de atenção está baixo demais. Minha mente embora fosse um turbilhão de pensamentos rodando a 300 Km por hora, ao mesmo tempo parecia apresentar algum tipo de mal funcionamento. Como não vi aquela casa amarela? Quando o ônibus chegou, entrei, cumprimentei o motorista e busquei uma banco em que eu pudesse me sentar sozinho. Pensei nas cadeiras individuais, mas já estavam todas ocupadas. Escolhi um banco duplo e me sentei rente a janela torcendo para que ninguém se sentasse ao meu lado. Eu queria privacidade.  Abri um livro e liguei minha invisibilidade. Em cada ponto que o ônibus parava, eu olhava de rabo de olho desejando que ninguém se sentasse ao meu lado. Nem sempre funcionava. Pensando bem, se eu estava invisível, ninguém logicamente me enxergaria. Então, fatalmente ocupariam o lugar ao meu lado.

   Outro dia, também no ônibus, criei uma estratégia eficiente. Para manter minha invisibilidade que, na verdade, era minha vontade de não falar com ninguém, pus nos ouvidos um headphone bluetooth, acessei o Youtube e comecei a ouvir alguns hits de minha preferência. Para minha surpresa, após cinco minutos a bateria do headphone acabou, o celular perdeu a conexão 4G e meu truque de invisibilidade fracassou. Um silêncio entranho me invadiu. Meus ouvidos despertaram para os sons que fluíam dentro do ônibus. Guardei o headphone e os ruídos do motor do ônibus, as conversas dos passageiros invadiram meus pensamentos. Senti como se minha consciência estivesse fora do corpo e eu pudesse ver tudo o que acontecia a minha volta. Vi pessoas falando ao celular, jogando no celular, engolidas pelas redes sociais. E o único sentimento que me pareceu honesto foi DESCONEXÃO através de uma suposta conexão. Fiquei perplexo.
   Todos os dias praticamente saímos de nossas casas como se estivéssemos ligados no piloto automático. Realizamos nossas tarefas, conversamos com pessoas como se fôssemos robôs. Não vivemos intensamente, limitamo-nos a existir. Mas depois desta experiência fiquei me perguntando qual seria o meu papel no palco da existência e o que posso fazer para iniciar uma vida com propósito e significado. Acredito que muitos estão vivendo da mesma forma e sendo empurrados para o abismo da solidão e, consequentemente decretando sua falência emocional. Contudo, descobri que existe uma maneira de mudar tudo isso e, desde então decidi me reinventar.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) apontou em 2019 que o Brasil é campeão mundial no índice de ansiedade.
Fonte: Coleção Mente e Vida Moderna. Editora Alto Astral. SP, 2019.


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