NOVELA DA VIDA REAL
Estamos coletivamente vivenciando a era da
falência emocional e do esgotamento cerebral,
algo só experimentado em campos de batalha.
Mas onde está a guerra que travamos?
Em nossa mente.
(Augusto Cury)
São cinco e meia da manhã. Mais
um dia que consigo acordar antes do despertador. A sensação é de não ter
dormido nada! Meu corpo está moído, mas mesmo assim preciso me levantar. Olho
como está o tempo pela janela: nublado, porém abafado. Ainda com movimentos
lentos escolho um tipo de roupa que melhor se adeque aos compromissos do dia e
ao clima. Ao mesmo tempo mentalmente luto contra um pensamento insistente: o de
ficar em casa. A desmotivação e a baixa autoestima já estão de pé perto da porta
da cozinha me esperando para serem a companhia do dia. Não consigo me livrar
delas. Já tentei, mas parecem ficar mais fortes a cada dia. Me pergunto se
tenho mesmo que sair de casa hoje. Respiro fundo, pego minha pasta com
documentos, miro a saída e em um impulso quase sobre-humano me desloco para o
ponto de ônibus. O pensamento de voltar à casa segue comigo. Para sair desse
foco olho para a rua e percebo uma casa que parecia não estar ali antes. Olhei
mais de uma vez para me certificar e confesso ter ficado confuso, pois não havia
reparado aquela casa amarela com flores em um canteiro ao lado do portão, do
lado de fora. Minha mente deve estar muito cansada ou meu nível de atenção está
baixo demais. Minha mente embora fosse um turbilhão de pensamentos rodando a
300 Km por hora, ao mesmo tempo parecia apresentar algum tipo de mal
funcionamento. Como não vi aquela casa amarela? Quando o ônibus chegou, entrei,
cumprimentei o motorista e busquei uma banco em que eu pudesse me sentar
sozinho. Pensei nas cadeiras individuais, mas já estavam todas ocupadas. Escolhi
um banco duplo e me sentei rente a janela torcendo para que ninguém se sentasse
ao meu lado. Eu queria privacidade. Abri
um livro e liguei minha invisibilidade. Em cada ponto que o ônibus parava, eu
olhava de rabo de olho desejando que ninguém se sentasse ao meu lado. Nem
sempre funcionava. Pensando bem, se eu estava invisível, ninguém logicamente me
enxergaria. Então, fatalmente ocupariam o lugar ao meu lado.
Outro
dia, também no ônibus, criei uma estratégia eficiente. Para manter minha
invisibilidade que, na verdade, era minha vontade de não falar com ninguém, pus
nos ouvidos um headphone bluetooth, acessei o Youtube e comecei a ouvir alguns
hits de minha preferência. Para minha surpresa, após cinco minutos a bateria do
headphone acabou, o celular perdeu a conexão 4G e meu truque de invisibilidade
fracassou. Um silêncio entranho me invadiu. Meus ouvidos despertaram para os
sons que fluíam dentro do ônibus. Guardei o headphone e os ruídos do motor do
ônibus, as conversas dos passageiros invadiram meus pensamentos. Senti como se
minha consciência estivesse fora do corpo e eu pudesse ver tudo o que acontecia
a minha volta. Vi pessoas falando ao celular, jogando no celular, engolidas
pelas redes sociais. E o único sentimento que me pareceu honesto foi DESCONEXÃO
através de uma suposta conexão. Fiquei perplexo.
Todos
os dias praticamente saímos de nossas casas como se estivéssemos ligados no
piloto automático. Realizamos nossas tarefas, conversamos com pessoas como se
fôssemos robôs. Não vivemos intensamente, limitamo-nos a existir. Mas depois
desta experiência fiquei me perguntando qual seria o meu papel no palco da
existência e o que posso fazer para iniciar uma vida com propósito e
significado. Acredito que muitos estão vivendo da mesma forma e sendo
empurrados para o abismo da solidão e, consequentemente decretando sua falência
emocional. Contudo, descobri que existe uma maneira de mudar tudo isso e, desde
então decidi me reinventar.
A OMS (Organização Mundial de Saúde) apontou em 2019 que o Brasil é campeão mundial no índice de ansiedade.
Fonte: Coleção Mente e Vida Moderna. Editora Alto Astral. SP, 2019.
Fonte: Coleção Mente e Vida Moderna. Editora Alto Astral. SP, 2019.

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